Meu querido Neymar,
O Garrincha está de prova. Aqui na
eternidade, onde o gramado está sempre verde, o bandeira não erra e a torcida
da China é maioria, só você e o Messi chamam tanta a atenção quanto o George
Best e o Didi. O Puskas ficou todo orgulhoso quando você ganhou o prêmio de gol
mais bonito do ano, que leva o nome dele. Mostrava para todo mundo sua jogada
contra o Flamengo e dizia num português sem sotaque (milagres acontecem): é o
meu garoto.
Eu digo para todo
mundo, desde que te vi jogando com 14 anos, lá em Santos, que você nunca seria
o Pelé. Você é um dos nossos. Primeiro foi o Garrincha. Depois, eu. Agora,
você. Nosso negócio não é fazer centenas de gols para não ser esquecido. É
fazer um, dois, talvez dez gols que sempre vão ser lembrados. Você não sabe
disso, mas a transmissão dos jogos das categorias de base do futebol do mundo
sempre foi um pedido dos boleiros. Ele só foi atendido quando o presidente
Kennedy interveio. Ele é americano, mas, como bom descendente de irlandeses,
aprendeu a gostar muito de futebol. Ele é seu fã desde que você dava os
primeiros tapas na bola. Ele lamenta muito que Freddy Adu não tenha um décimo
do seu talento.
Por isso escrevo
esta carta. Sua rivalidade não é com Messi. É com a história. Não caia na pilha
do Pelé porque pouco importa quem é maior ou menor agora. O que importa é como
as pessoas vão se lembrar de você em 20 anos e quantas pessoas você vai
inspirar por décadas sem fim. Eu e o Garrincha não sabemos mexer muito bem com
o You Tube, mas o Steve Jobs, desde que chegou aqui, tem dado uma força. Você
tem de ver a cara do Garrincha quando ele soube que a molecada vê os gols dele
até hoje. É sensacional ler os comentários sobre o meu gol contra o Santos, em
1992. Aliás, repare na coincidência: é o mesmo ano em que você nasceu.
Ando preocupado
contigo porque você anda caindo demais. Eu sei que os zagueiros pegam pesado,
mas algumas das suas quedas são constrangedoras. Você tem de ver a cara do meu
amigo Ziembinski, o homem que revolucionou o teatro no Brasil, durante o
amistoso da Seleção com o Reino Unido. A cada queda forçada, ele batia com
tanta força na mesa que os querubins tiveram de intervir. O homem detesta cena
mal feita. Puskas também ficou chateado.
O meu ponto é:
craque como a gente só cai quando não tem jeito. O Garrincha apanhava mais do
que o Chael Sonnen, mas tentava ficar de pé. Reveja os lances dele contra a
União Soviética, na Copa de 1958. O Steve Jobs diz que está tudo no YouTube.
Eu, quando joguei no Grêmio, senti na perna o que é o zagueiro gaúcho. Eu sei
que os caras batem. Eu sei que não é fácil carregar um talento tão grande. A
inveja é grande, o ressentimento é maior. Mas as pessoas são lembradas pelo que
fazem, não pelo que deixaram de fazer. Se você cai mais do que faz gols, será
lembrado muito mais como o homem que nunca fica de pé do que pelo artista que
você é.
Por isso, faço um
apelo: prefira o gol a queda. É uma das poucas coisas que você pode se inspirar
no Messi, que não cai e faz até o Jorge Luis Borges gostar de futebol. Jogue de
pé. Fique de pé. E seja o primeiro homem da nossa linhagem a ser eleito o
melhor jogador do mundo. Se você conseguir, é capaz até de adiarem o fim do
mundo (que não será em 2012).
Abraços com
ousadia e alegria, do seu fã, Dener.
Fonte: Texto de Leandro Beguoci - Via Fox Sports.

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